O Picasso do moreno
08/07/2009
Estava eu saindo de minha avarandada casa hoje pela manhã rumo à Redação deste site que você está lendo agora quando tive uma visão bela, quase renascentista (não fossem os buracos imperfeitos da calçada): um moreno alto, bonito e sensual com um corpo de dar inveja ao Davi. Mas não pára por aí, ele estava lavando seu carro, de camiseta branca apertada, calça marcando bem as curvas corporais (principalmente o delicioso kibe) e um cinto que, para minha alegria, estava um pouco largo demais.
Lá estava esse moreno lindo, quase em frente da minha casa, (se estivesse em frente, ia fazer um café na hora!) protagonizando aquela cena quase ficcional. Parecia bastante uma cena daquela antiga série da Globo “A Desinibida do Grajaú”, onde a mulher em questão (acho que a atriz era a Claúdia Alencar) ia lavar seu carro e, propositalmente, transformava isso em um show para os olhos masculinos (e das bolachas também, claro). E o moreno lavava seu Xsara Picasso com carinho, talvez sem querer, mas provocando.
Jogava água em seu Picasso e seu Picasso ficava molhadinho. O líquido escorria por todos os lugares do Picasso, deslizavam em ondas que abraçavam aquela coisa enorme, linda, me despertando uma vontade louca de subir no Picasso do moreno e ficar lá o dia todo aproveitando essa sensação deliciosa de estar sentado em um Picasso.
Diminui o ritmo do passo para não passar tão logo por ele, queria olhar mais. Oras, não é todo dia que um homem lindo daqueles decide lavar o carro quase em frente de casa, tinha que aproveitar. No máximo, o borracheiro da esquina lava seu calhambeque de sábado para levar a família para ver a avó em alguma cidade aos arredores de São Paulo. Um moreno com um Picasso nunca pode ser menosprezado!
E fui subindo, subindo, olhando o moreno, o Picasso, aquele líquido escorrendo fartamente do Picasso. Uma loucura. Como o moreno não ia pagar minhas contas, tive que vir trabalhar e passei pelo moreno, abandonando aquele antes tão privilegiado campo de visão. Continuei subindo a ladeira da minha casa rumo ao metrô. Claro que dei uma olhadinha ou outra para trás para ter certeza de que não era um sonho atrasado, que se recusou a ir embora quando eu levantei da cama.
Continuei subindo, mas agora muito mais animado. Afinal, tinha um moreno delicioso com seu Picasso bem atrás de mim.
| Escrito por Hélio Filho às 13h53 | ![]() |
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Amigo se guarda na prateleira
01/07/2009

Bill Lee (dir.) conversa com um de seus amigos exóticos
Amigos são ótimas fontes para se descobrir coisas novas. Sempre tem alguém que leu um livro incrível e vai te falar, viu um filme super legal e vai te indicar ou assistiu a uma peça e faz questão que você veja. E comigo não é diferente. Meus amigos são tão diferentes entre si que formam uma massa só, que eu adoro, uma bagunça de profissões, orientações sexuais e gostos. Essas diferenças garantem a mim uma seara farta de dicas – nem sempre boas, confesso (Vivi, música celta no jantar não rola!).
A última que segui foi assistir a um filme que minha amiga Vavá indicou. Já ia fazer dois anos que ela me falava dele, sempre super empolgada, dizendo que eu não podia deixar de ver. Pois bem, peguei o DVD emprestado e fui assistir. No primeiro minuto do filme eu já pensei: “Vavá é foda, sabe bem do que os amigos gostam”. O filme rolou e eu adorei.
Mas qual era o filme? “Mistérios e Paixões” (Naked Lunch), do David Cronenberg. Não é lançamento, pelo contrário, é de 1991 e meio difícil conseguir achar para locar. Sabe-se lá como (e melhor e mais seguro eu não saber mesmo), Vavá tinha e me emprestou. Baseado no romance autobiográfico de mesmo nome do escritor outsider William S. Burroughs, o filme conta a história de um homem que sonha em ser escritor, mas na realidade é exterminador de insetos na Nova York dos anos 1950. A mulher dele fica viciada em injetar o inseticida (ui! Colocadona! Inseticida bafo!) e faz o marido experimentar. Daí pra frente ele entra em uma sucessão interminável de viagens cada vez mais loucas.
É claro que o filme é só uma metáfora para o mundo louco que se pode entrar com o uso de certas substâncias. Bill Lee (o ator Peter Weller) começa a viajar que sua máquina de escrever é um inseto gigante (hilário e mal-humorado) membro de uma corporação secreta para a qual ele deve fazer relatórios. Só que essa corporação, a Interzone, na verdade é o limbo onde entram os adictos. Vale a pena assistir ao filme com essa visão desde o começo para catar bem a moral da história.
E os homossexuais entram com tudo (ui, de novo) na história. Considerada uma porta de entrada para a Interzone (o mundo das drogas), a homossexualidade é louvada em um mundo bem povoado por gays vulneráveis ao vício. Em certos momentos Bill chega a questionar se não seria homossexual, coisa que não fica muuuito clara não, viu? Quem não viu deve ver, e quem viu pode rever, duvido que deu para entender tudo em uma assistida apenas. Eu vou ver de novo, adoro a parte em que o inseto gigante faz piadas nonsense!
| Escrito por Hélio Filho às 18h13 | ![]() |
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A queda
18/06/2009
Queria muito falar sobre a Parada, mas não fazer mais um balanço, apontar erros e tal. Quero falar sobre o que talvez para mim foi o maior exemplo que eu vi durante todos os eventos da programação inteira. Foi no Gay Day, do Playcenter, no sábado, 13. Os gogo-dancers da Ultra Diesel começavam a dançar pro povo e no fundo do palco uma drag queen vestida toda de preto, com tecidos brilhantes e esvoaçantes, se preparava para entrar e fazer uma performance com eles. Esse fundo do palco era fechado com um tecido, mas que parecia uma parede naquele escuro e no adiantado da hora. Sem perceber isso, ela se encostou ali e o tecido foi cedendo, cedendo, cedendo e ela quase caindo.
Ela estava do meu lado e na hora eu tentei segurar de todos os jeitos. Juntava as pernas da bicha e puxava, puxava o tecido, tentava puxar qualquer coisa para que ela não caísse, até a peruca, que nunca cai da cabeça das drags. Não consegui e ela despencou de cima do palco e caiu de costas no chão, com direito a barulho abafado e tudo. Corri para a escada para descer e ajudá-la, ver se estava tudo bem. Nem cheguei à escada.
Antes que eu pudesse falar “meu Deus, ela caiu!”, a fofa já tinha levantado, sacudido a poeira e subia belíííssima a escada do palco. Com cara de “inhaim” e como se nada tivesse acontecido. Ela nem gritou, caiu e levantou. Pá-pum! Quando subiu no palco já entrou dançando, batendo cabelo, arrasando no salto. E assim foi durante o tempo todo que os ultradancers se apresentaram. Fiquei bege, não, acrílico com aquilo.
Principalmente porque depois descobri que ela tinha se machucado um pouquinho sim, sentia dores, mas mesmo assim foi cumprir seu papel dentro do caldeirão da diversidade. Isso sim é não se deixar abater pelas adversidades, é ter força de vontade e consciência de que quando se cai, do chão não passa e o melhor é mesmo sacudir a poeira e dar a volta por cima. Parabéns para ela.
| Escrito por Hélio Filho às 13h15 | ![]() |
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Parou
16/06/2009
É sempre complicado falar da Parada depois que ela é realizada porque cada um tem sua visão, como já disse aqui antes. Cada um viu um ponto mais positivo e outro mais negativo. Eu gostei mais do que desgostei. Achei legal neste ano ter um clima gostoso, por volta dos 15 graus, um pouco menos de gente e mais espaço para andar. Aliás, para quem cobre a descida dos trios na Consolação e sobe e desce o tempo todo a rua, esse espaço foi vital. Devo ter caminhado uns bons quilômetros, com direito a pé pisoteado e meio virado. Mas valeu a pena.
É claro que vários problemas ocorreram, como roubos, furtos, brigas (algumas bem sérias) e até uma bomba. São condenáveis, sempre, mas também esperados. É importante dizer que isso não acontece só na Parada, grandes eventos onde há bebidas alcoólicas e animação também registram ocorrências graves. Quem não se lembra da quebradeira no centro paulistano na Virada Cultural de 2007? Na edição deste ano, uma amiga viu um homem levar uma pedrada na cabeça e cair no chão durante um arrastão de meninos de rua marginalizados.
A coisa fica grande com o preconceito, porque “é coisa de viado”. É óbvio que é preciso cada vez mais segurança e mais do que necessário que os números de ocorrência caiam a cada ano, chegando ao tão almejado zero. Mas não é justo também ficar essa ideia de que só a Parada é violenta, só lá as pessoas exageram no vinho chapinha, só lá as pessoas são furtadas e roubadas. É burrice olhar apenas o pontinho preto na parede branca.
Tem muita coisa ainda para refletir sobre um dos maiores eventos cívicos do mundo, mas fica para outro post.
| Escrito por Hélio Filho às 17h51 | ![]() |
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Mâmâmâmá!!!
10/06/2009
A Parada é no domingo, 14, e todos os anos tem uma música que marca o evento. No ano passado eu lembro que era “Touch my body”, da Mariah Carey (que me faz lembrar do Erik até hoje). Neste ano eu aposto na mâmâmâmásérrima Lady Gaga neste posto, com “Pocker Face”, para ser mais exato. Desde “Just Dance” ela vem arrasando no meio das bichas e o novo sucesso conquistou de vez.
Eu adoro, adoro mesmo. Lady Gaga é muito gay, muito montada, brilhante, produzida, maquiada, exagerada, faz carão sem parar e o refrão de “Poker Face” tem aquele mâmâmâmá em voz masculina que é muuuito parente do “inhai” das travestis. Disseram para mim que ela já trabalhou em lugar gay como dançarina, acho que sei de onde vem a inspiração tão gay para suas performances. Lembra um pouco a Cher.
Como não poderia ser diferente, já vi umas três drags imitando Lady Gaga, claro que com o povo todo adorando. Aposto em “Poker Face” como música da Parada de São Paulo 2009. Mâmâmâmá! 
Mâmâmâmá!
| Escrito por Hélio Filho às 18h11 | ![]() |
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O que você espera da Parada de São Paulo?
09/06/2009
Segundo dados oficiais, 320 mil visitantes chegam à cidade para esse fervo, sendo que 70% são do interior do Estado, 25% de outras localidades brasileiras e 5% são estrangeiros. A cidade enche, os lugares gays idem. Carne, muita carne. Como é no feriadão, muita gente fica cheia de tempo livre para aproveitar toda a programação, que não pára a partir de amanhã. Para nós aqui do Mix, a Parada é sinônimo de muito trabalho, correria para estar em todos os lugares ao mesmo tempo e informar sobre tudo.
Eu gosto de ficar com a cobertura do circuito mais normalzinho, menos estrelado de grandes atrações. Jogo esse corpinho não-malhado no meio dos ursos, sapas e o povo do centrão, um fervo só. Pela segunda vez vou à Diva, festa das bolachas na The Week. Infelizmente este ano minha amiga Vavá não poderá ir. Que pena, no ano passado ela adorou o churrascão com pagode das sapas, mesmo sendo vegetariana e heterossexual. Mas ela já prometeu passar na Paulista no fim da Parada.
É engraçado ver como cada um vai ter uma visão da Parada. Para os militantes, será um momento de grande visibilidade, muito importante para a comunidade LGBT. Para os menos politizados, será uma sequência de festas, pegação e muita ferveção aguardada desde a última Parada. Para quem mora na Paulista, talvez um problema – e por aí vai. O mais legal é sempre saber que você faz sua festa, politizada ou não, fervida ou não, cheia de gente ou não.
| Escrito por Hélio Filho às 17h50 | ![]() |
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O rei
02/06/2009
Preciso assumir que sim, eu gosto de Roberto Carlos, o rei. E nem é da fase mais conceitual, Jovem Guarda, é do período chamado carinhosamente de “romântico”, mas que para a maioria é brega mesmo. Domingo é claro que eu assisti ao especial da Globo com um monte de cantoras interpretando as músicas dele. E eu conhecia quase todas, só nunca tinha ouvido uma que a Hebe cantou. Só para registrar (mesmo que eu me arrependa de ter revelado isso), também sou fã da Hebe e tenho um CD dela em casa, e foi comprado, não ganhei.
É em momentos como esse, Hebe na Globo, que dá para perceber o poder que alguns artistas têm. Eu poderia citar Madonna, Michael Jackson, Roberto Carlos e Chico Buarque para exemplificar bem como o alcance deles é universal. Acredito que o SBT possa até ter feito algum c* doce para liberar a Hebe, mas Roberto Carlos é mais forte do que qualquer concorrência e Hebe foi, e arrasou (ainda estou bege com os brincos e o colar que ela usou).
Além dela, um povo mais feliz, colorido, como Ana Carolina, Marina Lima e Mart’nália – só para ficar nas publicamente diferentes – também foi, e o rei adorou. Adorou porque ele sabe que suas músicas falam de amor de todas as maneiras, orientações, falam de como é gostoso ter alguém – e brigar com esse alguém e tudo o mais que o amor traz. Roberto é rei, pode não ser muito aceito por quem não gosta de músicas, digamos, fáceis, mas ele tem magnetismo, poder de persuasão.
Só não gostei de algumas coisas, como a Sandy como um todo, o exagero dramático de Marília Pêra (que quase ficou sem pescoço) e o jeito da Alcione, que parecia levemente animada pelo álcool e emendava uma palavra na outra. Quando eu estou aqui...
| Escrito por Hélio Filho às 12h05 | ![]() |
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14/05/2009
As coisas andam bem corridas por aqui por conta da Junior 11. Queria só registrar que amei os novos trens do metrô paulistano - principalmente porque eles têm uma ótima iluminação. Para quem é como eu e não entra no vagão sem algo para ler, é uma boa ajuda. Meu brigado ao responsável e minha desculpa aos oftamologistas.
| Escrito por Hélio Filho às 19h08 | ![]() |
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Pimba!
06/05/2009

A cada milésimo de segundo, uma banda, cantor, cantora ou sei lá mais qual tipo de agremiação musical pipoca na internet. É claro que 90% disso você joga fora porque é pura mistura de tudo que faz sucesso com uma pseudo-pincelada própria. Hoje em dia até a Mallu Magalhães canta (nem vou falar na Ângela Bismarchi – nem sei escrever o sobrenome).
O mais legal para mim é quando em meio a esse monte de gente PIMBA (pseudo-intelectual metido à besta alternativa) eu encontro alguém que vale a pena, que revisita algumas coisas, tem influências, mas faz um som original. Entre essas pencas de novidades que abastecem os iPods de gente que quer ser moderna, uma que realmente vale a pena é o Noisettes. Eles são britânicos, animados, superlativos e colocam qualquer um pra dançar, até aquela sua tia-avó de 112 anos.
Eles misturam punk, soul dos anos 80 e glam rock com a voz de verdade de Shingai Shoniwa (que também é baixista). Remelexo puro sem ser PIMBA. Aqui você confere o clipe de "Don't Upset The Rhythm".
| Escrito por Hélio Filho às 18h33 | ![]() |
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Família
04/05/2009

Todo mundo tem uma família, isso é óbvio, mas ninguém tem a família que eu tenho, a melhor de todas. A gente briga, fala mal um do outro, mas quando um precisa, todo mundo corre para ajudar, seja como for, sempre como pode. Não somos perfeitos e nem pretendemos ser. Minha mãe às vezes estressa todo mundo. Minha avó às vezes faz uns rolos que duram anos para serem desfeitos, mas estamos sempre juntos, sempre rindo um do outro e falando mal dos parentes mais distantes. Isso é família.
No feriado voltei para a Amazônia, para a casa da minha irmã em Mato Grosso, quase na pontinha norte do Estado. Fui batizar minha sobrinha e fiquei pensando que minha família toda sabe que eu sou gay, mas nunca me cobrou nem questionou nada. Tudo bem que minha avó de 81 anos ainda me pergunta se eu tenho namoradA, mas ela é ainda da época em que as pessoas se conheciam pelos sobrenomes e a televisão nem existia no Brasil.
Em um fim de semana super familiar, eu pude perceber que por mais careta e ultrapassado que pareça, aquele ditado de que a família é a base de tudo é verdade. Receber um abraço de um irmão, no meu caso, de três irmãs, não tem preço, ainda mais se for verdadeiro, sem querer algo mais, sem segundas intenções ou veneno. Abraço de amor, abraço de quem se gosta muito e não saberia viver sem aquela pessoa – mesmo que brigue com ela a cada cinco minutos por bobeiras.
O que dizer então de sobrinhas que correm para te abraçar quando você chega? Abraço grátis, sincero, puro e sempre cheio de sorrisos falhos de dentinhos de leite que estão caindo. Quem nunca recebeu um abraço desses com certeza vai achar meu post careta, piegas, uó... Uma pena, seria muito bom se todo mundo pudesse sentir aqueles bracinhos frágeis e pequenos em volta do seu pescoço, o beijo grudento com gosto de pirulito, o grito de alegria a cada brincadeira, por mais simples que for. Isso renova a alma de qualquer pessoa, joga pra longe qualquer problema. É como se aquele pequeno ser te sugasse para o mundo fantástico dele onde tudo é como deveria ser aqui na vida real, simples.
Nós, gays, muitas vezes temos que sair de casa para podermos ser nós mesmos, o que aconteceu comigo. Para viver plenamente como sou realmente, me distanciei de casa por respeito. Minha família me aceita, me acolhe, mas não é obrigada a achar legal algumas coisas que para os gays o são. E é esse justamente o segredo para se ter uma boa relação: respeito. Eu as respeito e elas me respeitam. Não vou obrigar minha mãe a achar drag queens divertidas. Minha avó não precisa falar “ai que luxo” para eu saber que ela me ama, até porque ela ama o neto dela, que antes de tudo é gente.
Como se não bastasse, minha irmã me convidou para ser padrinho de uma de suas gêmeas. Achei bem legal ela ter essa confiança em mim, confiança no sentido de que eu posso sim ser responsável por uma criança. Foi uma prova de respeito, de amor e de confiança, com certeza. Cada vez que vejo minha família me dou conta de quem realmente sou. Cada vez que brinco com minhas sobrinhas e priminhas volto a ser criança para amadurecer mais ainda. Cada vez que eu lembro da minha família eu lembro também que nunca estarei sozinho porque ela sempre estará de braços abertos me esperando, com o respeito que eu conquistei ao longo dos anos. Isso não tem preço. Quem não tem nem isso, não tem nada.
| Escrito por Hélio Filho às 17h42 | ![]() |
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Parapapá!
27/04/2009
Obviamente, voltei do Pará, até porque não era meu intuito, nem nunca foi, ficar por lá. Não que eu diga que nunca mais volto lá, mas posso garantir que não fiquei muito entusiasmado com Belém. Deve ser porque estava bem gripado, nem consegui sair do hotel direito e visitas turísticas passaram longe do meu roteiro. Foram cinco dias em um hotel com mais umas 250 pessoas da diversidade da diversidade da diversidade da diversidade sexual. Podia-se ver, e ouvir, de tudo, mas nem tudo pode ser falado, claro.
Do que é publicável, posso dizer que o movimento militante deu uma boa amadurecida. As pessoas estavam realmente engajadas e preocupadas com o que faziam (não que isso não acontecesse antes), queriam construir algo concreto e se jogaram nos grupos de trabalho, discussões e palestras dos cinco dias de programação. Até mesmo as tradicionais brigas, naturais em espaços tão democráticos, ficaram bem minimizadas. Parecia que o povo estava mais preocupado com a causa do que com o ego. Ótimo!
Dá para dizer também sem sombra de dúvida que as lésbicas vêm com tudo. Elas pulverizaram sua participação no congresso e cada pequena roda de discussão tinha uma delas lá, falando, discutindo e opinando. Com reuniões pontuais off-programação, as fofas conseguiram se articular, não discutiram e afinaram um discurso que foi transposto para a Carta de Belém, documento final do evento. Ponto para as mulheres.
Eu adoro sapas e poderia ficar aqui horas dizendo de como foi legal a participação delas no congresso, de como a perspicácia feminina, essa sensibilidade aguçada e sua organização natural estão moldando o segmento que futuramente vai sim desbancar os gays masculinos. Aposto que na próxima eleição da ABGLT, no segundo semestre deste ano, vai dar lésbica na cabeça. E acho isso ótimo.
Mas como não posso ficar horas dizendo isso, é bom falar também de outro povo que começou a dar as caras: os bissexuais. Foram só oito em Belém, mas pelo menos já se forma um início de organização. O que eu não achei nem um pouco legal foi ouvir comentários bem preconceituosos sobre eles, mas deixa pra lá porque falácia é falácia. Eles estão se organizando, conquistando espaço e para quem não acredita na bissexualidade é bom começar a abrir a cabeça (absurdo ter que dizer isso dentro de um movimento que deve agregar a todos sem preconceito).
Eu acredito em bissexuais, assim como não duvido de mais nada relacionado à sexualidade humana. Depois desse curso intensivo de diversidade sexual em cinco dias, convivendo com os mais diferentes gostos, posso dizer que o ser humano é mesmo inclassificável. Tem gente pra tudo e querendo fazer de tudo (desde que seja consentido e com maiores de idade, hein?). O mais legal é que sempre vai ter alguém, um grupo, uma ONG, que estará de olho para que os direitos de todo esse povo sejam garantidos, ou pelo menos estejam no caminho de.
| Escrito por Hélio Filho às 16h50 | ![]() |
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Pará
18/04/2009
E vim parar em Belém do Pará, sim, da Fafá. Vim para cobrir o III Congresso da ABGLT, que está sendo realizado em um hotel bem à beira de um rio que eu não lembro o nome, mesmo o povo daqui tendo me falado vááárias vezes. Enfim, falta de memória provocada à parte, dá para dizer que, claro, aqui as coisas são bem diferentes. Claro, é a região Norte, não tem muito a ver com a as outras e isso é maravilhoso, um congresso de diversidade em uma região bem diferente do eixo Rio-São Paulo.
Ainda bem, assim ganho, não só eu, mas todos os participantes, uma chance de conhecer coisas novas, ver gente diferente (beeem diferente), tomar suco de cupuaçu e comer a melhor farinha do Brasil. Entendi porque Fafá é bem fortinha, a farinha daqui é incrível. Mas a impressão que me dá, deve ser pela proximidade do rio, é a mesma de estar no Pantanal, úmido, quente e bem chuvoso. Tem bastante coisa para contar, mas tem tanta discussão por aqui e tanta votação que fico por aqui.
| Escrito por Hélio Filho às 16h13 | ![]() |
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Kgada
16/04/2009
Sou muito desajeitado. Estava eu andando ontem em casa rumo à lavanderia e dei um passo em falso no degrau. Machuquei meu pé e estou parecendo a Shirley de “Torre de Babel” (lembra da Karina Barum?). Eu hein. Além disso, fui vítima de mais uma inversão térmica paulistana e fiquei meio constipado, que ebó. Jesus é maior! Mas é isso aí, andando devagar e sempre se chega ao longe. Até porque não tem outro jeito de andar nessa situação.
| Escrito por Hélio Filho às 18h10 | ![]() |
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Baby
14/04/2009
Minha hegemonia foi quebrada. Depois de 25 anos sendo o caçula da casa, meu pai, que é separado da minha mãe, me diz hoje que eu terei uma irmãzinha. Essas coisas dão um nó na cabeça de qualquer um. É realmente a nova composição da família brasileira, que inclui famílias com dois pais, duas mães e assim por diante. De repente, uma irmã, outra, porque eu já tenho três – mais velhas. Mas essa será mais nova, o clima deve ser bem diferente, outra onda. É esperar para ver.
Eu bem que achava estranho ele sair lá dos confins do Tocantins para vir até São Paulo quase todo mês no ano passado. Não quis me contar o que estava fazendo por medo que eu o reprovasse por ter mais de 60 anos e querer ser pai de novo. Eu julgar? De modo algum, sou gay e isso significa (no meu caso, pelo menos) que eu quero que todo mundo viva sua vida do jeito que bem entender, desde que respeite o próximo. Bobo ele, mas entendo.
Minha madrasta, que não é má e com quem eu passo horas conversando sobre esmalte e cabelo (eu a adoro, mas ela precisa de uns toques), já está de seis meses, o que significa que provavelmente minha nova irmã será leonina, e com leoninas eu me dou bem – que o diga Vavá, Maria Elisa e Maria Fernanda. Claro que ela vai adorar receber elogios e nunca vai se conformar em ser a segunda pessoa mais requisitada da festa, tudo bem, estou acostumado.
Mas o melhor foi uma deixa que meu pai, que jura não saber que eu sou gay, soltou. Ele queria mais um menino - até porque o que ele fez há 25 anos saiu meio diferente do que ele esperava -, mas veio outra menina, a quarta filha dele. Ele está feliz, mas confessou super naturalmente: “queria um menino agora, só tenho mulher em casa”. É claro que eu fiz a egípcia e nem dei confiança. Gostei do tom da voz dele, sem reprovação, como quem está brincando mesmo.
Eu sei que ele queria outro menino não porque não goste de mim, mas porque eu sempre fugi de ficar fazendo aquele monte de trabalhos super masculinos e nunca consegui ficar muito tempo nas rodas de conversa dos amigos dele. Se algum ainda fosse interessante, quem sabe. Não foi dessa vez que meu pai vai ter uma nora (minha mãe ama pensar que nunca terá uma nora), a não ser que minha irmã mais nova seja bolacha, seria bem legal.
| Escrito por Hélio Filho às 15h56 | ![]() |
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O fim
07/04/2009
Hoje termina o Big Brother Brasil, a nona edição, a que vem antes da décima, que com certeza já deve estar programada. Estou torcendo para a Priscila - que é de Campo Grande (MS), onde morei por anos -, que me fez perceber que a cidade produz um tipo de humor específico. Muita gente não entende nada das piadas dela justamente por esse jeito - enquanto eu racho de rir e morro de saudades dos amigos pantaneiros engraçados. É uma coisa bem sincera, de gente que não precisa se preocupar com a violência urbana, Campo Grande é super calma.
Como não tem esse estresse, você se sente melhor para tirar sarro de você mesmo, estar de bem com a vida, relevar o estresse dos outros e rir da cara dos estressados, além de fazer muitas piadas com isso. Campo-grandenses são assim, leves, riem de tudo na roda do tradicional tereré e querem sempre que todo mundo se sinta bem. Às vezes passamos por falsos por querer que todo mundo esteja bem, problema de quem acha. Quem vê o pôr-do-sol pantaneiro sabe que tem coisas bem maiores do que preocupações fúteis.
Pode ser o jeito interiorano, o humor descompromissado e autodepreciativo, seja o pôr-do-sol (dá um Google e confere), a falta de estresse, seja lá o que for, estou torcendo para a Priscila ganhar, só espero que não tenha nenhum carro dos Bombeiros esperando por ela quando voltar à Cidade Morena para desfilar pela avenida principal. Tadinha, ela não merece isso.
| Escrito por Hélio Filho às 17h51 | ![]() |
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