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Era uma casa muito engraçada...

24/10/2008

Na maioria das vezes em que eu falo para meus amigos heterossexuais que trabalho no Mix e na Junior vem a pergunta: só pode trabalhar gay no Mix? A dúvida é pertinente, já que nossa equipe é formada por gays, lésbicas, um bissexual e uma travesti. Só nossa eficiente prestadora de serviços domésticos é hétero, mesmo tendo confessado um passado suspeito.

Não, não tem que ser gay para trabalhar aqui, mas é que se trata de uma Redação bem segmentada, com matérias que levam gírias e exigem um conhecimento de causa, vivência. Não é heterofobia, é só uma questão de adaptação. Tudo bem que meus melhores amigos héteros como a Vavá e o Rodolfo são mais gays do que eu, mas a labuta diária no meio LGBT pode não trazer para eles uma realização pessoal (que vem da profissional) tão grande quanto para nós, as fofas que escrevemos para você. Vou explicar um pouco nossa dinâmica para que isso fique mais claro.

O Mix fica aqui na Vila Madalena (segundo nossas fontes lésbicas internas, o bairro paulistano oficial das bolachas), em um sobrado de cor amarela. Nunca perguntei pro André se é isso mesmo, mas o amarelo para mim significa a diversidade. Quando uma mãe não sabe se seu filho vai ser menino ou menina, se joga nas roupinhas amarelas, não é? Não é azul “de menino” e nem cor-de-rosa “de menina”. Nas paredes, pinturas coloridas e um painel com o povo que já trabalhou aqui em um estilo meio pop-art.

Na Redação, somos em oito gays. Dá para imaginar as conversas, não? Conversamos, debatemos e quando surge uma dúvida sobre relacionamento o assunto cai na roda e ganha a opinião e experiência de todo mundo. Tem eleição dos mais gatos do momento também. De repente, Britney Spears (ou Rihanna) pode começar a cantar na caixa de som do Irving ou Anthony and The Johnsons na do Marcelo. Às vezes, o Paulo chega animado e coloca um som também, que pode ir de Damien Rice a Sugarcubes, dependendo do que o iPod dele selecionar. É legal ser jornalista e gay, assim você escreve as matérias ouvindo Madonna, xoxando o novo CD da pseudo-cantora ou ouvindo as histórias bafônicas do fim de semana.

Na recepção, Kelly joga seus longos cabelos pra lá e pra cá, do mesmo jeito que corre aqui dentro de um lado pro outro com o telefone (que não pára de tocar) na mão e cheia de coisas para fazer. Na parte de cima, André curte a vista da varanda de sua sala de um lado da casa e está sempre falando com alguém para resolver as milhares de coisas do grupo Mix. Do outro, quatro gays e uma lésbica passam o dia em meio a números, contas, extratos financeiros, notas fiscais e tudo mais que a parte burocrática exige.

Na Rádio, Ingrid produz as vinhetas e edita os programas que vão ao ar, além de receber os convidados e buscar sempre novidades musicais para o playlist. Do lado da rádio fica o Festival, onde um fofo e uma fofa passam o dia mergulhados em nomes de diretores, classificação de filmes, contatos nacionais e internacionais para articular eventos e muitos, mas muitos DVDs.

Não tem que ser gay, lésbica ou travesti para trabalhar aqui, mas tem que achar normal e engraçado quando surge um toque de celular bem gay como o “Sou rica!” da Carolina Ferraz, quando alguém te der bom dia com vários emes no final para dar aqueeela vibração bem bicha, quando for cobrir desfile de roupas em uma sauna ou quando você quer usar o banheiro e ele está fechado por horas e, quando a porta abre, o rapaz magrinho que entrou lá dentro sai montadíssimo. Os banheiros do Mix às vezes presenciam isso: entra um bofe e sai uma drag luxuosa.

Isso é um pouco do muito que acontece por aqui. Acho legal revelar um pouco dos nossos bastidores. Gostou?


Escrito por Hélio Filho às 17h38 Comentários Envie

Quentinha

23/10/2008

São Paulo está pegando fogo. Que calor é esse? A primavera demorou, mas chegou com cara de verão. As comuns chuvas de despedida do inverno já caíram, começou a estação quente. E bota quente nisso. Hoje fomos almoçar eu, Irving, Josi e Ingrid e até dispensamos o cafézinho da digestão porque não dava para esquentar ainda mais o corpo. Ok, como bom paranaense, não dispensei, confesso, mas eles nem quiseram saber de bebidas quentes.

Eu morava em Mato Grosso do Sul antes de vir para São Paulo (looonga história). Campo Grande é quente, faz mais de 40 graus às vezes e chuva mesmo só para encher o Pantanal no fim do ano. Mas lá venta, não tem nem um vigésimo dos prédios da Paulicéia, o ar corre, refresca. Sem contar na umidade deliciosa que o Pantanal sopra. Acho que mais de um ano morando em São Paulo me desacostumou das temperaturas mais quentes. Fico pensando em como meu pai, que mora em Tocantins, se vira quando faz 46 graus, porque sim, faz.

Para quem gosta de sol, o que não é meu caso (odeio tomar sol e vou à praia só depois das 17 horas), o clima está ótimo. Com o horário de verão então, dependendo da hora que você sai do trabalho (se tem um) dá até para se arriscar em uma piscina tomando um bronze, ficando da cor do pecado para o verão. Ar-condicionado é um verdadeiro tesouro nesses dias. Os do Mix estão à toda o dia inteiro.

Olhando lá para fora agora (18h40), dá até para ver umas nuvens pesadas que ameaçam contribuir para o nível pluviométrico anual, mas faz dias que só ameaça e nenhuma gota cai de lá de cima. Bom, moro em um País tropical, o jeito é abusar de bebidas geladas e das sombras que se espalham pela rua. Não esquecendo dos óculos escuros.


Escrito por Hélio Filho às 18h47 Comentários Envie

26 de outubro

22/10/2008

No próximo domingo, dia 26, alguns municípios brasileiros vão novamente chamar seus eleitores para votarem nos candidatos a prefeito. De modo geral, são duas pessoas que já se atacaram incessantemente durante o primeiro turno e chegam ao segundo já cansados de se defender do ataque um do outro. Trunfos na manga foram usados (nem todos, no caso de políticos mais experientes e de visão) e os eleitores já pedem a Deus e todos os santos para que a campanha acabe logo. Horário eleitoral é necessário, mas cansa.

Para os jornalistas que cobrem Política, principalmente aqueles que só fazem isso, a sensação é de “lá vem essa história de novo”. O pior é que Política é uma das editorias mais delicadas, senão a mais. Escrever sobre políticos é mexer na instância psíquica humana mais poderosa, o ego, que subentende vaidade, poder. Sempre alguém vai ficar magoado, vai achar um absurdo a matéria, vai gritar, criticar e discutir. Não dá para agradar todo mundo, e essa não é a intenção. Informar nem sempre é tarefa fácil.

Na Política LGBT não é diferente. O candidato X não gosta porque você entrevista o Y e não faz isso com ele, mesmo que as entrevistas sejam programadas e abranjam todos eles, mas em dias diferentes. Além disso, a comunidade gay acha que os jornalistas devem aplaudir todas as iniciativas em favor da causa, mas não é assim. Jornalista é um ser crítico por natureza, contestador, inquieto e que não se contenta em bater palmas apenas. Queremos refletir, dizer o que aquele encontro, reunião, comício ou caminhada representa. Não dá só pra contar como foi.

E a comunidade LGBT acha ruim se você critica alguém que defende os homossexuais. Jornalista não é assessor de imprensa de político (a não ser se for contratado para isso), nem deve se tornar um porta-voz ignorante das falas dele só porque fulano ou cicrano se diz a favor dos gays. Até porque, na campanha surgem aliados da causa às dúzias, centenas. Jornalista precisa ser um olho do leitor nos lugares onde ele não pode estar, até porque estar nos lugares é nosso papel, não de quem lê. Reportagem quer dizer reportar, entende?

Mas não dá só para ficar na descrição, é preciso um pouco de reflexão, digressão. Se foi ruim, foi ruim, e ponto final. Se foi bom, palmas. Mas nem todo mundo pensa assim, ainda mais no meio político. As ideologias que permeiam todos os partidos são direcionadas, cada uma tem um sentido diferente (mesmo que hoje os políticos pareçam todos iguais). Mexer nessas “certezas” dos partidários é passo certo para ser criticado. Quem está dentro da Política nem sempre consegue reconhecer que suas ações não alcançaram o resultado esperado, e frustração é ruim, gera recalque, inveja e até ódio.

Eu fui um pouco criticado por algumas matérias de Política, mas acho normal, pelo menos consegui fazer com que meu leitor discuta alguma coisa, participe, pense. Não volto atrás em uma pequena palavra que seja do que escrevi ou falei nos Podcasts (confira na seção “Voto GLS”). Não tenho partido, não voto em São Paulo e muito menos vou abaixar a cabeça porque acharam ruim eu colocar também o lado falho da coisa. Não menti e essa certeza me deixa pleno.

Os candidatos que dialogaram com os LGBTs, pelo menos em São Paulo, se mostraram fofos, preocupados, mas também escorregaram. Sim, os três primeiros lugares das pesquisas de intenção de voto erraram, em maior ou menor escala, é verdade, mas erraram, em alguns pontos deixaram a desejar. Isso não pode ser omitido, não se pode bater palma para discursos assim. Jornalista é uma coisa, eleitor e partidário é outra. A imprensa tem a obrigação de mostrar os dois lados do mesmo fato, é um princípio básico aprendido em toda boa faculdade de Jornalismo. Com os dois lados, o leitor forma a visão dele, sem interferências. Ele lê e decide o que acha.

As eleições vão acabar e essas pessoas que se exaltaram, brigaram e xingaram durante toda a campanha vão voltar para suas casas, suas vidas. Voltar de vez, sem ficar pensando nas urnas. Toda aquela animosidade de antes se dissipa e fica diluída no corrido cotidiano, que apaga muitas coisas consideradas super importantes antes de 26 de outubro. Eu vou continuar aqui, escrevendo para você ler e ficar informado, saber o que está acontecendo de forma clara para se tornar uma pessoa mais participativa da sociedade e aprender que críticas bem fundadas devem sempre ser feitas. Bem fundadas, repito.


Escrito por Hélio Filho às 18h14 Comentários Envie

Roberto

20/10/2008

Sábado fui ver o show de lançamento do novo CD do Frejat, “Intimidade entre estranhos”, no Via Funchal. Intimidade entre estranhos não poderia ser um título melhor, foi assim que me senti. Conhecia o Frejat, mas o Frejat rock, que incendiava o povo com o Barão Vermelho, gritava palavrão e subia ao palco cheio de sangue nos olhos. Confesso que não acompanho a carreira solo dele, sem contar os sucessos radiofônicos, acho que não sei nenhuma música dessa nova fase. Mas eu conhecia o Frejat, a voz continua a mesma (sexy, cheia de malícia e daquelas ondas deliciosas que se misturam às guitarras), mas ele mudou, pelo menos sua música.

Frejat agora é mais low profile, está com menos riffs e mais amores mal-resolvidos. O som continua bom, rock gostoso mesmo até quando beira o pop meloso. Mas eu ainda prefiro aquela barulheira cheia de distorções nos solos de guitarra como em “Por que a gente é assim” ou “Pedra, flor e espinho”. A rebeldia de uma banda que nasceu nos obscuros anos 1980 - marcados pela AIDS e uma nova ordem política no Brasil, agora sem ditadura (pelo menos militar) - com a beleza das letras dos poetas Cazuza e Frejat.

O Barão foi uma das bandas da minha infância e adolescência, e continua a ser ouvido por mim nessa fase inicial da vida adulta. Porque sim, gay também gosta de rock, não é só Britney e Rihanna. Meu primeiro disco (vinil) era do Midnight Oil, e eu nem sabia direito o que era aquilo. O Barão tinha um rock gostoso, pesado, mas cheio de ginga carioca, dando aquela vontade de dançar e não só pular ou bater a cabeça, no caso dos headbangers.

Como a música é a expressão do músico, a do Fejat não poderia ser a mesma do Barão. Ele mudou, é pai, está quase nos 50 e já provou que é bom, que segurou a onda quando Cazuza deixou o grupo. Agora é a hora dele, só dele. É hora de chamar o filho para tocar no palco (e arrasar) e fazer música despreocupado com a crítica. É hora de brincar com os vários sucessos do Barão e colocá-los no show aleatoriamente, qualquer um será bom e todo mundo vai cantar. Sábado ele mandou coisas como “Bete Balanço”, “Malandragem” e “Por que a gente é assim”, o melhor momento da apresentação.

Nessa música, a guitarra voltou para a mão dele, que sabe como fazer a gente arrepiar com os riffs. Momento rock, daqueles com pano de fundo de rebeldia, transgressão, rock’n’roll, p*¨%#$. Valeu todo o show. Mas o engraçado é que se Frejat anda calminho, as duas músicas que o filho dele, Rafael, tocou na guitarra mostraram que vem gente boa por aí, bem longe da frescura de Fresno e NXZero. O garoto tem aquele cabelo um pouco grande e com um quê de despenteado. Arrasa na guitarra e tira sons pesados, hard.

O pai desacelerou, mas o filho promete chegar metendo o pé na porta da mediocridade do rock nacional atual. Ele poderia crescer logo e começar a fazer uns shows, eu ia adorar. Pelo menos fica a certeza de que se Frejat esquecer algum dia o que é rock, basta Rafael abrir a porta do quarto e aumentar o amplificador de sua guitarra. Ele fica longe de outros filhos de músicos como Maria Rita e Jairzinho de Oliveira simplesmente porque não está imitando o pai, está superando. Mais uns poucos anos e teremos muitas boas notícias de um menino carioca que está incendiando o rock.

Frejat mudou, sua música mudou e eu também mudei. E isso é ótimo, a arte é assim, dinâmica. Nenhum (bom) artista nunca ficou só em uma linha de criação, sempre diversificou porque cria, e criação subentende sentimentos íntimos, que, claro, mudam ao longo dos anos. Eu também não pulo mais em shows, não enfrento filas enormes para ver uma banda e nem tomo mais aquela bebida assassina da adolescência com apelido simpático de “Bolha”.

Deixa o Frejat fazer o que bem quiser com sua música, a contribuição que ele deixou em anos no Barão (e nos eternos CDs que poderemos ouvir quando quisermos) lhe dá essas merecidas férias da vida louca vida, vida breve (nãooo) do rock. Pena que a missão de fazer a gente arrepiar vai ficar a cargo de não tão criativo artistas, tipo uma bandinha pseudo-indie que assistia ao show de Frejat com seus cabelos meio compridos jogados na cara. Eles poderiam aprender um pouquinho com quem sabe das coisas. Ir ao show já foi um bom começo.

No vídeo, "Ponto Fraco", uma das que eu mais gosto.



Escrito por Hélio Filho às 15h29 Comentários Envie


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