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Sem ideia

09/01/2009


Não consigo ter idéias sem acento. Eles têm, e não tem. Paraquedista ou pára-quedista? Confesso que estou confuso com essa reforma ortográfica. Demorei 25 anos para aprender o pouco que sei sobre como escrever corretamente e vem um acordo unificador - e perturbador - e joga tudo no lixo. Tenho muitas reservas quanto à reforma, principalmente porque antes de tentar unificar a escrita é preciso que o povo saiba escrever. De que adianta mudar as regras para se escrever se o povo brasileiro mal sabe escrever? Vai unificar a escrita errada antes de corrigi-la? Hum, não sei não.

Agora que os níveis de alfabetização estão (lentamente) subindo é hora de se preocupar com isso, em aumentar esse acesso à escrita, mas à boa escrita. Tudo bem que já não temos mais tanta gente lambuzando o dedão na almofadinha de carimbo para assinar o nome, no caso, o dedo. Mas ainda tem muita, muita gente que não sabe a diferença entre conserto e concerto, assento e acento, coser e cozer. Vai complicar mais ainda derrubar regras que há tanto tempo estão aí e não conseguiram ser aprendidas por todo mundo. Magôo virou Magoo, igual ao senhorzinho do desenho. Ai, estou confuso.

Esse tipo de coisa me faz lembrar minhas aulas de Português e minhas professoras. Como sempre estudei em escola pública, com salários docentes quase hilários, lembro que minhas lentes suavam a camisa, blusa, camisete ou vestido para ensinar aquelas crianças que só queriam saber de jogar papelzinho no colega e pular o muro da escola no recreio, que depois da 5ª série vira intervalo. Nunca entendi essa evolução, mais uma, né? Mas sério, minhas professoras eram compromissadas, gostavam do que faziam e deliravam ao som de poemas bem escritos, textos bem construídos e acentos devidamente colocados.

Fico pensando e tentando imaginar como está o humor da professora Nilzete, aquela que sempre ia com a calça lááá em cima, quase no peito, deixando a pata de camelo super destacada. Ela é daquelas que fala devagar porque formula, revisa e revisa de novo a frase que vai dizer ou escrever. Vem à mente uma imagem dela em meio a novos livros de ortografia, desolada pela perda dos sinais, pelo empobrecimento da língua. Espero também que ela tenha cortado o cabelo, era pavoroso e inquietante ver tantos fios fora de lugar. Um atentado ao bom aprendizado.

E a professora Sandra? Ah, meu exemplo de bom português. Uma professora excelente, anos luz à frente da Nilzete (acho que por isso as duas nunca se deram bem). Roupas discretas e elegantes, cabelo sempre arrumado, perfumada, outro nível. Bem baixinha, mas com um conhecimento gigante. Fico imaginando as lágrimas correndo por cima da pinta que ela tem (será que ainda tem?) do lado esquerdo da boca quando viu o que virou seu tão amado ato de escrever. Ortodoxa como é, acho que nunca vai engolir esse acordo.

O que dizer então da Cida, Cidoca, Cidona, Cidinha, minha professora de Redação do 3º ano? Magrinha, baixinha e muito brava, a uma hora dessas deve estar voltando a se dedicar ao Direito para não ensinar que o que ela dizia que era certo agora é errado. Tudo bem que ela me explorava e me fazia dar aula no lugar dela para a turma, na época achava até legal, depois percebi que eu trabalhava e ela ganhava. Sacanagem. Mesmo assim guardo boas lembranças dela e não deixo de pensar em sua desilusão desde o último 1º de janeiro.

Na pós-graduação, alguns dos meus professores defendem, outros não. Um dia fui discutir com um que defende e ele me disse que a língua é dinâmica e que evolui. Lembrei que você vem de vossa mercê e tantos outros exemplos, mas isso não me convenceu. A língua é dinâmica, muda, claro, e isso é ótimo. Só que ela precisa ser aprendida antes. Tem muita gente que nem sabe o que realmente vai mudar simplesmente porque sempre escreveu de uma forma que era errada e que agora se tornou certa.

Continuo confuso. O próximo passo é virtualizar a língua? Vamos escrever tb, vc, msg, td, kd? Sendo bem pão-duro, pergunto: o que farei com os manuais de redação que comprei? Nem sebo vai aceitar.


Escrito por Hélio Filho às 16h30 Comentários Envie

Velinhas velhinhas

07/01/2009

Eu nunca tinha parado para pensar em como estaria com 25 anos. Lembro só que sonhava em ter 17 quando era criança. Achava uma idade legal, bem adolescente, clima pré-vestibular, pré-CNH. Com oito anos, isso é o máximo para você. Você quer ter 17, amigos, baladas, falar gírias e mais um monte de coisas próprias da idade. Pois é, já faz oito anos que eu fiz 17 e 17 anos que eu tinha oito. O tempo voa, na velocidade da luz daquelas espadas do Star Wars (para ficar diferente de apenas velocidade da luz).

E hoje eu faço 25 anos. Metade de 50, ¼ de século. 25 é sonoro, pesa. É como fazer 20, 30. Números múltiplos de cinco costumam ter esse peso, essa idéia de estar completando algo, no caso, uma fase. Fazer 25 até que é legal. Quem tem mais idade com certeza vai falar: “ah, ainda é um bebê”. Sim, eu sei que ainda sou novo, mas o peso dito ali em cima continua a ser sentido.

O dia do aniversário da pessoa é especial porque é sinal de mais um ano, mas também traz uma pontinha de melancolia, não tristeza, e faz a gente pensar no que fez desde o último aniversário. 7 de janeiro de 2008 eu estava feliz, casado e ganhei uma micro festa-surpresa (tem hífen? $%#@ de reforma) do amado. Aí comecei a pensar no que se passou desde aquele dia até hoje. Muita coisa aconteceu. O amado já não é mais amado e nenhuma festa-surpresa vai rolar hoje. Mas, com certeza, estou bem mais feliz do que há um ano, e isso faz toda a diferença.

Nunca gostei de comemorar meu aniversário. Não faço questão de festa, mensagens cheias de desejos maravilhosos e telefonemas intermináveis recheados das palavras “felicidade”, “anos”, “vida” e “seu dia”. Não faz muita diferença para mim. Agora o mais estranho: sempre fico mega sem graça quando recebo um presente, acho que por isso não gosto muito de armar uma festa, fazer convitinhos e comprar comes e bebes. Acho que nunca agradeci o bastante, que quem me deu o presente merece mais agradecimentos, mais pompa, mas eu sou muito indiferente, a tudo, e juro que me esforço para passar a imagem de que realmente gostei. E, na maioria das vezes, eu gosto mesmo.

Quando a noite de hoje chegar, já terei atendido a muitos telefonemas e respondido a tantos outros e-mails, todos com o mesmo texto, mudando apenas o gênero do destinatário. Isso faz parte do tal dia do seu aniversário, entendo. Abri minha página do Orkut hoje e já tinha cerca de 60 mensagens. Algumas de pessoas super queridas e amadas, outras de gente que não vejo há tempos e só aparecem quando fica em negrito a data do aniversário. Como diria o contemporâneo filósofo ícone de uma geração altamente letrada Cléber Bam Bam, faz parte.

Tenho muito que comemorar hoje, mas também muito que pensar. Começou a contagem para os 30. Quando o três ocupar o lugar do dois, aí sim a coisa vai pegar. Enquanto isso vou continuar por aqui, estranho e avesso a formalidades da data. Faz exatamente 25 anos que sou assim, ainda bem.


Escrito por Hélio Filho às 12h29 Comentários Envie

No Mato, Grosso

05/01/2009

Voltei da Amazônia, do norte do Mato Grosso, para ser mais exato. Todo mundo aqui em São Paulo me perguntava o que eu ia fazer lá em pleno Ano Novo. Por que me enfiar no meio do mato em uma das datas mais fervidas, ui, festivas, ui, badaladas, ui, tudo de melhor do ano? Fora as caras de espanto, hilárias, e as recomendações das mais absurdas, foi tranqüilo convencer os paulistanos de que meu Ano Novo amazônico seria legal, ainda mais porque foi do lado da família, no colinho da mamãe, aquele ser que quase todo gay ama e que é o mais importante da vida dele.

Acho engraçadas as reações das pessoas comigo. Primeiro que era de se esperar que eu, como a maioria das bichas, me jogasse em algum lugar conhecido, cheio de gente que se acha vip e jura que é amiga de todo mundo que acha que é importante. Que nada, a Amazônia é bem melhor. Tem ar puro, não tem carros, gente demais e pisar na terra e na grama te traz uma sensação que nenhuma super festa cheia de super pessoas com seus super modelitos fazendo seus super carões tem. Muita gente ainda não se conforma, paciência.

Tudo bem que é longe, demorei quase 12 horas para chegar. Peguei avião, ônibus e van, mas cheguei, e antes do novo ano, o que é o mais importante quando se viaja em pleno dia 31 de tarde. Cheguei acabado, destruído, de mau-humor, estressado, mas bastou ouvir minha mãe me chamando com sua voz tipicamente alta e desinibida para que tudo isso passasse. E o cheiro de mãe então? Dá vontade de deitar no colo e ali ficar pra sempre. Pronto, estava tudo bem de novo.

Passei quatro dias em uma cidadezinha com 30 mil habitantes, silenciosa, calma. Um dos momentos mais legais foi meu passeio de barco no rio. Meu concunhado (concunhado é parente?) me emprestou um enooorme chapéu de palha, bem de peão mesmo, para me proteger do sol durante o trajeto. Como palha coça, além de espetar seu couro cabeludo, cruzes! Outra coisa bem legal foi confirmar que gay tem em todo lugar e são muito parecidos.

Mesmo em um lugar tão distante, na avenida principal (ponto da "balada" da cidade) um grupo de três fofas ligava o som de um Opalão prata com um típico bate-cabelo bem alto, fechando, arrasando. Batidão, querida, em plena Amazônia. Enquanto as outras caixas de som dos outros carros - animadores oficiais da avenida - tocavam Vitor e Léo, Bruno e Marrone e mais toda sorte de músicas feitas por dois nomes, as colegas batiam o cabelo na calçada.

Foi nessa mesma noite que vi Thiago, ah, Thiago. Heterossexual (eu acho), pegador, de andar safado e encantador. Um moreno de cerca de 1.75m, de pernas torneadas, peitoral na medida e uma pele brilhante. Um corpo trabalhado diariamente nas inúmeras plantações de soja da região, nada de academias e bombas. A beleza bruta, mas não agressiva. Não o conheci, soube seu nome porque outro homem o chamou (e chamou minha tenção com isso). Não sei bem se senti tesão, acho que sim, mas foi mais fascínio mesmo, saber que ele é o representante original de uma beleza tipicamente brasileira que une o melhor de cada raça ali misturada. Fui embora, sem Thiago.

Voltei desse passeio pela Amazônia mais cansado do que fui por causa dessa maratona da viagem, mas valeu a pena. Vi mamãe, conheci minhas duas novas sobrinhas (gêmeas), aprendi a fazer mamadeira e embalar bebês para pegarem no sono. Nada de pegação, ferveção e loucura, só fraldas, chupetas, berços e carrinhos a serem empurrados. Para mim, foi o melhor Ano Novo da minha vida.


Escrito por Hélio Filho às 17h35 Comentários Envie


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