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Casando II (ou por que as pessoas se casam?)

14/10/2009

E quando você menos espera uma dúvida vem e coloca em xeque e instiga seus pensamentos. Durante o casamento da Camila, o do post anterior, uma dúvida me veio à mente: será que as pessoas casam simplesmente por não terem coragem de olhar para seus relacionamentos e questionarem se ainda são produtivos? Se realmente estão na etapa de casar, mesmo com anos de namoro?

Não sei, não mesmo. No caso da Camila com certeza não. Ela e o Paulinho já namoravam há pelo menos quatro anos e moravam juntos há uns dois e meio, foi só para oficializar mesmo, fazer a festa pra família, já estavam casados. Amigado com fé casado é. No caso dela não, mas e nos outros? E nos casos onde a família da noiva é tradicional, ela não pode morar com o namorado antes de casar e vai ter que descobrir como é acordar ao lado dele durante uma semana inteira já na prática?

Os casais heterossexuais devem satisfação à sociedade, estão dentro dela e seus relacionamentos são guiados por ideais milenares de fidelidade, amor eterno e família. Uma noiva poderia fazer o questionamento antes de casar e adiar a data? Poderia, mas fico imaginando como seria para ela dar a notícia para a família, dizer que talvez não esteja pronta para casar, que prefere pensar mais.

O vestido já está sendo feito há meses, as madrinhas já trocam e-mails falando de seus vestidos para não chegar uma igual à outra, os pais já começaram a pagar a festa, a lua-de-mel já com passagens compradas e por aí vai. Como se adiar tudo isso em nome de uma certeza que vai te guiar, supostamente, para a vida toda fosse um grande trabalho.

E tem ainda aquele desejo feminino de casar na igreja, de branco, com marcha nupcial, docinhos tipo bem-casado (comi toneladas no casamento da Camila), fotos, pajem, daminhas e quilômetros de véu. Tudo isso deixa a mulher meio perturbada mesmo, acho que dias antes do casamento elas estão estressadas também pelos motivos que dizem, mas acho que muito mais por não terem feito o questionamento. Acabam se casando por comodismo, hábito, costume, e muita pressão, claro.

Eu comentei minha dúvida com uma amiga e ela fez cara de quem também se inquietou. Será realmente que o casamento (não para todos, repito) é o próximo passo depois de anos de namoro? Será que se a noiva ou o noivo olharem para trás e se questionarem se o casamento é o passo seguinte mesmo haveria tantos casamentos?


Escrito por Hélio Filho às 18h37 Comentários Envie

Casando – Parte I

13/10/2009

Fui padrinho de mais um casamento neste ano. Sábado cheguei em Londrina (PR) feliz por participar de mais uma dessas cerimônias na igreja. Somando batizados e casamentos, eu acho que é a quinta vez que vou à missa neste ano em ocasiões especiais. Já estou virando expert em ser padrinho. Ta precisando de um? Pode me chamar que eu arrumo a malinha e me jogo para onde for já com a vela do batismo na mão ou o terno do casório no corpo.

É engraçado porque eu acho que serei padrinho de mais uns seis casamentos da minha turma de faculdade, um grupo de uns 10 amigos que se amam. Eu, o Gui e mais oito meninas, todas minhas discípulas na arte de como não se tornar uma mulher frustrada, mal-comida. Em junho foi a Marê que casou com o Stéfano. No sábado foi a Camila, que casou com o Paulinho. Aí já tem um agendado para novembro de 2010, quando a Marina e o Luís vão se casar depois de uns oito anos de namoro.

Mas eu queria falar mesmo do casamento da Camila, o último. Além de todas aquelas coisas que todo casamento tem, algumas merecem ser destacadas. Primeiro que eu era o único homem na igreja e na festa que não usava camisa lisa com gravata listrada, mas sim camisa listrada com gravata lisa. Aí todo mundo confirmou a diferença entre os padrinhos e convidados. A cerimônia foi linda, eu chorei horrores e meu emocional ficou arrasado. Minha cabeça não parava de lembrar dos momentos bons que passamos juntos durante esses seis anos que nos conhecemos (se eu não fosse gay essa frase seria motivo de divórcio). Chorei sim, chorei mesmo. 

Mas a coisa pegou mesmo na festa. Essas oito meninas têm uma coreografia especial da música “Can’t take my eyes of you” onde elas fazem uma fila e meio que dançam ao estilo cancan, o que sempre era feito em todas as nossas festas. E não foi diferente no casamento. A noiva (ainda não muito bêbada) pegou o microfone, subiu no palco e começou a chamar “todas as meninas da minha sala de faculdade, minhas amigas lindas que eu amo. Só as meninas aqui no palco. Vem Maria Fernanda, Vivi, Berta, você também, Hélio, Marina, Priscila...”. Sim, acabei entrando no rolo e dançando a coreografia, com direito a registro em vídeo e fotografias.

Como se não bastasse, minha amiga que me ama muito fez questão de me chamar de novo ao palco, sempre gritando no microfone na frente de todo mundo, porque “tá tocando Shakira, eu sempre lembro de você”. E lá fui eu dançar “Estoy aqui” (sim, Estoy aqui) sem beber nada, sem nada de tóxico no sangue, na cara limpa, à base de amor por ela. Não teria feito nenhuma das duas coisas se não fosse por ela, se não fosse em um momento tão especial para ela. Nessas horas nossa vergonha some e tudo o que você quer é ver sua amiga sorrindo no dia mais especial da vida feminina dela.

Ok, nesta altura da festa meu outing estava mais do que completo. Apertei o botão do foda-se e fui curtir a festa com meus amigos. Mas sempre tem alguém que não segura a onda. Um homem casado, pai de filhos, cabelos grisalhos e muita bebida na cabeça começou a me cercar, fazia quibinho (que era um quibão) olhando pra mim, ficava passando e esbarrando, encarando sem parar e até me seguindo no banheiro sem sucesso. Achei um absurdo ele, que era parente do noivo, ficar querendo dar vazão aos seus desejos bem naquela hora. A mulher dele estava do lado dele, o irmão idem, toda a família. Que vergonha, que absurdo.

Não há nada mais patético para ser visto do que o espetáculo de quem é enrustido dá quando bebe um pouco mais. Lamentável e com certeza broxante. Não, comigo não. Fugi a noite toda (e espalhei pra festa toda o que tava rolando, claro). Mas livre dele, eis que surge um primo que é meio primo (esses rolos de família) da noiva puxando papo. Questionando, querendo saber, querendo conversar, querendo... Fugi de novo, não ia rolar fazer a puta da esquina e catar o bofe no banheirão em pleno casamento. Respeito os outros para ser respeitado (todo mundo deveria fazer o mesmo, né?).

Aí depois de escapar de dois viados, gays, bichas, mariconas – e uso os apelidos para confirmar o que eles eram, homossexuais como eu, mesmo querendo esconder – eu tive uma surpresa maravilhosa: ganhei um beijo de um menino, mas menino mesmo, de três anos. Ele estava brincando com as bolhas de sabão que eu estava fazendo, se divertindo pencas. Aí minha amiga que estava de um lado meu pediu um beijo, ele deu, a outra, que estava do meu outro lado, também pediu e ele deu. Aí quando eu menos espero, a mãe dele virou e disse: “agora dá um beijinho nele (eu) também, meu filho”. E o menino veio com sua doçura de criança e me deu aqueles beijinhos fofos de criança na bochecha.

Primeiro fiquei paralisado com a atitude da mãe dele. Uma mãe de verdade, que desde cedo ensina ao filho que ele deve tratar todo mundo com carinho e que beijar o rosto de um gay não transforma ninguém em gay, bissexual. Foi uma das atitudes mais nobres que eu vi na minha vida, de verdade. Fiquei bem emocionado, lisonjeado, me senti valorizado, humano. Aí continuei pensando e achei irônico o menininho me dar um beijo sem preocupações enquanto os dois adultos me desejavam, mas tinham que se segurar por medo.

Engraçado é que é bem provável que esse menino cresça aquele tipo lindo de heterossexual que protege gays, beija no rosto, abraça e pede conselhos, coisas de amigo, tipo um Rodolfo, um Thiago na minha vida. Já com os adultos, ah, esses são caso perdido mesmo. O casado vai continuar imaginando uns pêlos no peito da mulher dele e o solteiro vai continuar jogando sua cantada barata fora para descobrir se “algum cara discreto, boa pinta, tranquilão e fora do meio que queira um lance com outro brother” o deseja. O menininho vai casar porque quer, com quem quer, como a Camila, não como o parente do noivo, por pressão. Ponto para a felicidade de quem?


Escrito por Hélio Filho às 18h23 Comentários Envie


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